Espirometria · Broncoprovocação
Leitura: ~12 min Revisado por equipe clínica Atualizado 2026

Você convive com tosse seca recorrente, falta de ar ao subir escadas ou chiado que aparece no frio — mas a espirometria simples veio “normal”. Frustrante? Comum. Em muitos casos de asma leve ou intermitente, o VEF1 basal está preservado no momento do exame, porque não há broncoespasmo ativo naquele instante. É aí que entra a broncoprovocação com metacolina: um teste funcional que provoca, de forma controlada e reversível, o estreitamento das vias aéreas para demonstrar se seus brônquios hiper-reativos.


O que é a broncoprovocação?

Diferente da prova broncodilatadora — que parte de uma obstrução já existente e verifica se ela melhora com medicamento — a broncoprovocação parte de uma espirometria basal normal e estimula as vias aéreas com um agente provocador. A metacolina é a substância mais usada: ela mimetiza a ação da acetilcolina nos músculos brônquicos, causando broncoconstrição dose-dependente em pulmões hipersensíveis.

O paciente realiza espirometrias seriadas após doses crescentes de metacolina. Se o VEF1 cai além de um limiar pré-definido (geralmente ≥ 20% em relação ao basal), o teste é positivo — indicando hiper-reatividade brônquica. Ao final, administra-se broncodilatador para reverter completamente o efeito.

Quando o médico solicita este exame?

As indicações clássicas incluem:

Suspeita clínica forte de asma com espirometria basal e prova broncodilatadora normais — tosse variável, sintomas noturnos, história familiar, rinite alérgica associada.
Tosse crônica sem diagnóstico após investigação inicial — especialmente quando a tosse piora com exercício, frio ou exposição a irritantes.
Avaliação ocupacional — trabalhadores com sintomas respiratórios relacionados ao ambiente laboral e espirometria simples inconclusiva.
Atletas com dispneia inexplicada e função pulmonar basal preservada — para descartar asma induzida por exercício.

Como é o procedimento na prática

O exame dura entre 60 e 90 minutos e deve ser realizado em ambiente com equipamento de ressuscitação e profissional treinado. As etapas seguem protocolo padronizado:

1
Espirometria basal

Três manobras aceitáveis. O VEF1 basal precisa estar ≥ 70% do previsto e sem obstrução significativa para iniciar a provocação com segurança.

2
Doses crescentes de metacolina

Inaladas por nebulização em concentrações progressivas. Após cada dose, nova espirometria. O processo para quando o VEF1 cai 20% ou mais — ou quando a dose máxima é atingida sem queda significativa.

3
Reversão com broncodilatador

Salbutamol é administrado ao final. O VEF1 deve retornar a pelo menos 90% do valor basal antes da alta. O paciente permanece em observação.

Preparo: o que suspender e por quê

Broncodilatadores mascaram a hiper-reatividade e podem gerar falso negativo. As suspensões típicas (sempre com orientação médica individualizada):

MedicamentoSuspensão usual antes do exame
Salbutamol / fenoterol (SABA)6 a 8 horas
Formoterol / salmeterol (LABA)24 a 48 horas
Tiotrópio (LAMA)24 horas
Teofilina24 a 48 horas
Antihistamínicos3 a 7 dias (conforme protocolo)
Corticoide inalatórioGeralmente não precisa suspender
Nunca suspenda medicamentos por conta própria. Em asma mal controlada, o médico pode optar por adiar o exame ou ajustar o protocolo. A segurança vem antes do diagnóstico.

Interpretando o resultado

Teste positivo: queda do VEF1 ≥ 20% em relação ao basal com dose de metacolina abaixo do limiar de referência (geralmente ≤ 8 mg/mL de concentração provocadora que causa queda de 20% — PC20). Confirma hiper-reatividade brônquica e corrobora diagnóstico de asma na maioria dos contextos clínicos compatíveis.

Teste negativo: mesmo com dose máxima, o VEF1 não cai o suficiente. Asma leve intermitente ainda é possível (nenhum teste tem 100% de sensibilidade), mas outras causas de tosse crônica devem ser investigadas: refluxo, rinite pós-nasal, bronquiectasias, uso de medicações.

Segurança do exame

Quando realizado com critérios de elegibilidade, equipamento adequado e equipe treinada, a broncoprovocação é segura. Contraindicações incluem infecção respiratória recente, IAM ou AVC recente, aneurisma, gravidez e VEF1 basal muito baixo. O paciente assina termo de consentimento informado.

Metacolina vs exercício: qual provocação escolher?

A provocação com exercício (ou com ar frio e seco) é mais específica para asma induzida por exercício — sintomas que aparecem durante ou logo após atividade física. A metacolina tem maior sensibilidade geral para hiper-reatividade brônquica. O médico escolhe conforme o quadro clínico predominante.


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